Porque Eu Não Acredito que Conhecimento É Poder

Com essa declaração, coloco em questão a famosa frase de Francis Bacon “scientia potentia est”, escrita em Latim e que quer dizer: Conhecimento é poder.

Declaração que resumia o que até há pouco tempo entendíamos que seria o grande diferencial em nossas vidas profissionais: quanto mais eu sei, quanto mais cursos eu faço e onde eu faço, maior a garantia do meu sucesso.

Muitos de nós fomos educados a ter um dos grandes milestones de vida o diploma de um curso desejado ou a entrada em uma faculdade renomada. E a batalha das gerações anteriores para prover o melhor para os seus descendentes seria enfim recompensada. Afinal, muitos deles não tiveram o mesmo privilégio.

Ao mesmo tempo que entendemos sobre a importância da educação e da aquisição de conhecimento, o mercado evoluiu e o tornou acessível. As barreiras para a aquisição do que antes estava entre quatro paredes, agora o tornou corriqueiro e a um clique de distância.

É possível cursar uma, duas ou várias faculdades inteiras com o conhecimento que hoje é disponibilizado online. E não apenas providas por organizações renomadas, mas também por indivíduos, que compartilham conhecimento por meio de suas redes.

Agora que vivemos na era da abundância e acessibilidade da informação, todos podemos ter conhecimento. Adquiridos de maneira formal ou informal. Absorvidos de forma profunda ou superficial. Nos proporcionando ser generalistas ou especialistas.

E com a transposição das barreiras a esse acesso, o conhecimento pelo conhecimento deixa então de ser a garantia do sucesso profissional.

 

Se conhecimento não é poder, o que é então?

A própria definição da palavra “Poder” nos ajuda a encontrar essa resposta: a habilidade ou capacidade de dirigir ou influenciar o comportamento dos outros ou o curso dos acontecimentos.

O conhecimento aplicado é poder. Em um mar de opiniões, factóides e informações desconexas, aquilo que pode ser aplicado para trazer resultados ou causar uma mudança, vale ouro.

E ter a capacidade de agir, tomar decisões e se mover em direção aos seus objetivos, impactando o ambiente/contexto ao seu redor, com o conhecimento (por vezes mais do que suficiente) que temos em mãos é o que faz a diferença.

 

Conhecimento que paralisa

O que vejo hoje, entretanto, é a ânsia em adquirir mais conhecimento pelo conhecimento: Preciso me atualizar no mercado, preciso de mais essa pós graduação para estar pronto, preciso ter um melhor currículo para ser valorizado…

E como consequência, vejo com ainda mais frequência a paralisação frente a tudo que foi adquirido.

Paralisação que acontece, seja por não encontrar a oportunidade de viver na prática o contexto que exige tal conhecimento, ou então pela perda de perspectiva nessa imersão: quanto mais eu sei, mais eu descubro que não sei nada.

Por outro lado, a incapacidade do mercado de absorver tanto conhecimento sem aplicação, levou muitos a buscarem alternativas de como ganhar dinheiro com ele. E então tivemos o boom de gurus em diversas áreas.

 

A busca pelos atalhos

A aplicação prática nos faz falhar, pois a realidade é diferente do que aquilo que lemos. É um processo que não vem isento de dificuldades. Pelo contrário: nos incomoda, seja por não termos as respostas ou não sabermos o próximo passo.

Ter que aplicar na prática nos exige ter que buscar alternativas, testar, ajustar, pensar durante dias ou meses, aguardar, colher resultados, tentar de novo.

Mas em um mundo imediatista que valoriza os atalhos, para que sofrer nesse processo se eu posso começar a ensinar?

E então vemos os discursos sem coerência, sem intenções ou mesmo clareza.

Com a prática sendo cada vez mais difundida, começamos a desconfiar e a nos questionar: o que afinal tem relevância? Em quem eu posso confiar? No que vale investir o meu tempo?

 

Quem se destacará no mercado? 

Na era em que temos a maior biblioteca viva do mundo facilmente acessível em mãos, aqueles que sabem aplicar ou analisar as informações, colher observações e melhores práticas, entender o que funcionou e o que não funcionou, o que é válido em determinado contexto ou não, são os que se destacarão.

Aqui, reforço que a aplicação prática não é necessariamente a aplicação física ou no mercado tradicional de trabalho. Mas também aquelas praticadas por filósofos, historiadores ou pensadores que colocam em ação e geram impacto com o poder da conexão de ideias, observações, discussões, para um objetivo final.

Afinal, descobertas, inovações e mudanças de rota muitas vezes surgem de observações e conexão de ideias. E grandes revoluções, por meio de vozes compartilhando seus ideais.

Em todos esses casos, o que vemos é o conhecimento aplicado, que seja de vida. E é ele que tem poder. Gera mudanças, traz verdade e nos faz evoluir.

Todo o restante tende a ser barulho.

 

Devo parar de adquirir conhecimento? 

Não, pelo contrário. O constante aprendizado além de nos trazer mais sabedoria, nos proporciona mais repertório, jogo de cintura, perspetivas valiosas e inovadoras e nos alimenta a alma. Conhecimento é algo que nunca sairá de moda e que em grandes quantidades nunca faz mal.

A provocação desse texto é que não nos deixemos nos paralisar em causar o impacto que temos o potencial de causar, por não entendermos que estamos preparados ou capacitados suficientes. Ou por não encontrarmos a oportunidade ideal para aplicar o que sabemos. É preciso agir.

Ao mesmo tempo, não critico aqueles que querem ensinar.

Eu sempre digo, sempre há alguém que precisa muito do que temos em mãos. E há espaço e demanda para todos: para aquele que sabe muito e para aquele que sabe pouco, mas que pode ajudar aquele que nada sabe.

A minha provocação é que haja sempre coerência, verdade e responsabilidade nos discursos. Caso contrário, é um desserviço àqueles que são influenciados por quem ensina e àqueles que também ensinam na mesma área e que perdem a oportunidade de realmente contribuir e causar mudanças a quem está nessa busca.

O conhecimento aplicado é poder.

Em um futuro próximo, eu acredito que em vez de perguntamos aos nosso filhos ou netos: O que você aprendeu hoje? Provavelmente estaremos mais interessados em saber: O que você fará ou pode fazer com o que aprendeu hoje? 

Você também acredita?

 

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