Quando a confiança é quebrada: O que podemos aprender com Rawvana, a influenciadora vegana que foi filmada comendo peixe

Talvez você já tenha escolhido ir a um restaurante apenas porque o seu amigo te recomendou.  

Ou comprado um produto porque algumas pessoas que você acompanha online também compraram. 

Mesmo que conscientemente não queiramos ser influenciados por outras pessoas, para nos mantermos fiéis ao nosso poder de decisão, somos susceptíveis à influência a todo momento. 

Pessoas confiam em pessoas. 

E as pessoas nas quais confiamos – e gostamos – tendem a ser o nosso atalho para as frequentes e inúmeras tomadas de decisão que fazemos diariamente: seja na compra de um produto ou na leitura de um conteúdo. 

Um mercado de Bilhões emergiu em cima dessa lógica. E, apesar de o marketing de influência não ser novidade, ele cresceu exponencialmente com as redes sociais e a forma como nos comportamos e interagimos nela. 

Quando a confiança é quebrada

Nos últimos dias, a comunidade vegana em todo o mundo foi abalada. 

Yovana Mendoza, influenciadora conhecida como Rawvana, foi filmada com um prato de peixe em sua frente, enquanto sua amiga vlogger compartilhava conteúdo com os seus seguidores. 

Rawvana tentou esconder o prato da filmagem, mas não foi bem sucedida (e nem vista como bem intencionada pelos seus fãs).

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O vídeo teve alta repercussão e colocou Rawvana no centro de várias críticas: sobre a autenticidade do seu estilo de vida vegano, a comercialização de produtos que prometem uma vida saudável e sobre a sua transparência como influenciadora. 

Rawvana tem quase meio milhão de assinantes no YouTube e 1,3 milhão de seguidores no Instagram. 

E logo depois à exposição, publicou um vídeo de 33 minutos em seu canal no YouTubetentando explicar o incidente.

Isso é o que está acontecendo

Em seu vídeo, Rawvana pede desculpas pela forma como seus fãs descobriram sobre o fato e diz que estava planejando contar a todos, mas “da minha forma, nos meus termos”. Para ela, estava sendo um processo admitir e aceitar que precisaria mudar sua dieta por motivos de saúde. 

Logo em seguida, ela reforça o que acredita: na dieta baseada em plantas e no veganismo. 

Conta o porquê começou o seu Instagram e Youtube anos atrás e menciona todos os benefícios que esse estilo de vida de “deixar o alimento ser o seu remédio” trouxe. 

Rawvana reforça que permaneceu vegana durante 6 anos e nos últimos dois meses incorporou ovos e peixes em sua dieta. E novamente, reforça o quanto acredita em sua dieta e no que oferece. 

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Em seu vídeo, ela conta sobre a sua “jornada” e que após 1 ano sendo vegana, decidiu fazer um jejum de 25 dias apenas ingerindo água. Logo depois, a sua menstruação parou. 

Yovanna diz que após conversar com outras pessoas do movimento – e não profissionais de saúde – ela entendeu que esse efeito colateral era normal e ficou até feliz na época por ter acontecido com ela. E permaneceu sem menstruar por 2 anos.

Quando em 2015, ela começou a conversar com mais pessoas, ler sobre o assunto e – finalmente – entendeu que não ter a sua menstruação não era algo saudável. 

Só então resolveu procurar um médico, fazer os exames, para descobrir que estava em pré-menopausa, apesar de sentir-se super bem. 

Em seu vídeo, ela continua contando sobre os seus altos e baixos em sua saúde, cansaço, problemas com hormônios, níveis de energia, trocas de médicos e tentativas alternativas em resolver o problema. 

Até que foi diagnosticada com SIBO, supercrescimento bacteriano do intestino delgado, uma desordem em que há um número excessivo de bactérias no intestino delgado e que pode causar impactos na nutrição do corpo e sintomas como diarréia, inchaço e vômitos. 

Apesar de ter a opção de seguir uma dieta vegana restrita e complementar com suplementos – o que após tentar, admitiu não ser conveniente – ou seguir a dieta e tomar antibióticos – o que ela acreditava não ser a melhor opção em sua opinião – Rawvana decidiu inserir peixe e ovos em sua dieta. 

E que mesmo com essa decisão, não estava conseguindo admitir que alimentos de origem animal poderiam curá-la e, por isso, precisava de um tempo para processar essa informação.

Rawvana finaliza o seu vídeo dizendo que está colocando a sua saúde em primeiro lugar,  que cada corpo é diferente e que tudo que fez foi por uma “emergência médica”. 

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Diz também que esse episódio serviu para ela refletir e mudar a forma como interage com o seu público e que agora quer “compartilhar de forma transparente tudo que acontece comigo”. E que não o fazia até então pelo medo do que os outros pensariam dela. 

E então, agradece a todos, diz o quanto vê o seu público como amigos e o quanto os ama. 

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O impacto em sua reputação 

Em seu discurso, é possível entender as suas crenças e o quanto as suas opiniões são embasadas apenas nelas e em sua filosofia de vida

E não há problema nenhum em viver assim. 

Mas a partir do momento em que a sua forma de viver possui influência de grande alcance e – ainda – existe um negócio em torno dessa promessa, deve existir responsabilidade e, principalmente, transparência sobre todos os termos. Sejam eles bons ou ruins. 

Muitos de seus clientes ou seguidores poderiam estar passando pelos mesmos problemas ao seguir a sua dieta, mas não houve nenhuma ação que pudesse alertar ou dar apoio à sua “comunidade”. 

A sua preocupação “o que os outros irão pensar”  admitida no vídeo e em manter a sua imagem – e negócio – foi maior do que o interesse em ser transparente e genuína ao compartilhar a verdade com os seus seguidores. 

Pessoas confiam em pessoas. Mas para que essa confiança exista é preciso que ela seja construída e mantida em torno da verdade e da transparência, mesmo quando seus próprios interesses possam estar em risco. 

No caso de Rawvana, a vaidade e/ou o interesse comercial pode ter posto em risco o seu papel de influência. 

Outro agravante? 

Rawvana está inserida na indústria do emagrecimento, que durante anos foi reconhecida – e criticada – pela abundância de promessas milagrosas e duvidosas. 

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Em seu site, ela vende dietas e planos para quem quer uma jornada de transformação, detox e perda de peso. 

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Para muitos, então, o caso de Rawvana é apenas mais uma não surpreendente farsa. O que também não coloca a sua reputação em uma boa situação.  

A repercussão na comunidade 

Em seus canais, Yovanna tem sido alvo de críticas. 

Comentários com emojis de peixe tem sido usados para provocá-la e até um perfil com a combinação do nome “Rawvana” e “fish” (peixe) foi criado como forma de protesto. 

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E muitos veganos endossaram as críticas: 

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A repercussão reflete o sentimento de decepção. 

A marca, seja de uma empresa ou de uma pessoa, é uma promessa. 

E ela cresce, engaja, ganha a confiança pelo cumprimento dela e pela coerência entre a mensagem que dissemina e a verdade na prática. 

Em seus canais, ela reforça o seu posicionamento e declara a sua promessa ao público: 

“Ser saudável é um estilo de vida divertido” 

“Rawvana é mais do que apenas um nome; é uma jornada de transformação e amor que promove melhorar a nossa qualidade de vida por meio de um estilo de vida saudável e uma dieta consciente” 

“Revele o seu autêntico eu” 

Entretanto, saúde, diversão, consciência e autenticidade foram exatamente os pontos que não estiveram presentes em sua “jornada de transformação”.

Influência e responsabilidade

Pode ser que Rawvana ainda estava tentando descobrir qual a melhor atitude a ser tomada, sem que a confiança nela como vegana junto às marcas e ao público – e também o seu negócio – pudessem ser afetados. 

Mesmo com as melhores intenções, não houve responsabilidade. 

E como influenciadora em uma área relacionada à saúde – e ainda, quando existe a venda de promessas de transformação relacionadas ao emagrecimento – é preciso ter ainda mais responsabilidade. 

Assim como as indústrias farmacêuticas devem informar os efeitos colaterais de seus medicamentos, produtos e serviços que causam um impacto na saúde precisam chamar a atenção para possíveis efeitos também. 

Não há como prever a reação do público com relação a verdade. Por isso, talvez Rawvana tenha optado por esconder o fato como a melhor saída. 

Mas como nós todos sabemos, em um mundo hiperconectado, e online 24 horas por dia, é muito difícil manter um fato desses como segredo. Para uma pessoa com milhares de seguidores, ainda mais. 

E eu ainda me questiono: Qual seria a motivação para Rawvana contar a verdade após esse período não sendo descoberta, como ela disse que o faria? 

Consciência e legislações 

No que se refere a nós, como seguidores, é preciso cada vez mais desenvolver e aplicar o senso crítico – seja na avaliação da promessa de um produto ou no discernimento do que é uma notícia falsa ou um conteúdo duvidoso. 

E quanto ao mercado do marketing de influência e da propaganda será preciso entender e delimitar cada vez melhor quais são os limites para que uma ação possa ser tomada.

Se muitos influenciadores não tem responsabilidade, de que forma é possível que a falta dela não impacte na vida de muitos? 

E em um mercado global e sem barreiras para o alcance da influência, esse desafio é gigante. Concorda? 

Juliana Saldanha – Estrategista em Personal Branding. Criadora do Método Go-to person. Tenho como objetivo te ajudar a posicionar e a comunicar melhor o seu valor para o mercado. Cada marca pessoal é única, porque não valorizá-la?

Mais textos sobre o assunto? julianasaldanha.com.br

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